QUADRO 7
“Liturgia - A Santa Missa.”
“Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco,
antes de padecer” (Lc 22,15)
CARTA APOSTÓLICA DESIDERIO DESIDERAVI - PAPA
FRANCISCO
A Liturgia: o “hoje” da história da salvação
“Desejei ardentemente comer esta Páscoa
convosco, antes de padecer” (Lc 22, 15). As palavras de Jesus, com que se
abre a narração da última Ceia, são a fresta através da qual nos é dada a
surpreendente possibilidade de intuir a profundidade do amor das Pessoas da
Santíssima Trindade para conosco.
Pedro e João tinham sido mandados fazer os
preparativos para se poder comer a Páscoa mas, vendo bem, toda a criação, toda
a história – que finalmente estava para se revelar como história de salvação –
é uma grande preparação para a Ceia. Pedro e os outros estão a essa mesa
inconscientes e, todavia, necessários: qualquer dom para o ser deve ter alguém
disposto a recebê-lo. Neste caso a desproporção entre a imensidade do dom e a
pequenez de quem o recebe é infinita e não pode deixar de nos surpreender.
Apesar disso – por misericórdia do Senhor – o dom é confiado aos Apóstolos para
que seja levado a todos os homens.
Ninguém tinha ganho um lugar para aquela
Ceia. Todos foram convidados ou, melhor, atraídos pelo desejo ardente que Jesus
tem de comer aquela Páscoa com eles: Ele sabe que é o Cordeiro daquela Páscoa,
sabe que é a Páscoa. Esta é a novidade absoluta daquela Ceia, a única
verdadeira novidade da história, que torna aquela Ceia única e, por isso,
“última”, irrepetível. Todavia, o seu infinito desejo de restabelecer a
comunhão conosco, que era e continua a ser o projeto originário, só poderá ser
saciado quando todos os homens, “de todas as tribos, línguas, povos e nações”
(Ap 5, 9) comerem o seu Corpo e beberem o seu Sangue: por isso aquela mesma
Ceia se tornará presente, até ao seu regresso, na celebração da Eucaristia.
O mundo não o sabe ainda, mas todos “são convidados
para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19, 9).
Antes da nossa resposta ao convite – muito
antes – está o seu desejo de nós: até podemos não ter consciência disso, mas de
cada vez que vamos à Missa a razão primeira é porque somos atraídos pelo seu
desejo de nós.
O conteúdo do Pão partido é a cruz de Jesus,
o seu sacrifício em obediência de amor ao Pai. Se não tivéssemos tido a última
Ceia, isto é, a antecipação ritual da sua morte, não teríamos podido
compreender como a execução da sua condenação à morte pudesse ser o ato de
culto perfeito e agradável ao Pai, o único verdadeiro ato de culto.
Desde o princípio que a Igreja foi consciente
de que não se tratava de uma mera representação, mesmo que sagrada, da Ceia do
Senhor: não teria tido qualquer sentido e ninguém poderia ter pensado em “pôr
em cena” – e ainda mais sob o olhar de Maria, a Mãe do Senhor – aquele
altíssimo momento da vida do Mestre. Iluminada pelo Espírito Santo, a Igreja
entendeu desde o primeiro instante que aquilo que era visível de Jesus, aquilo
que se podia ver com os olhos e tocar com as mãos, as suas palavras e os seus
gestos, o caráter concreto do Verbo encarnado, tudo d’Ele tinha passado para a
celebração dos sacramentos.

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